Forte de São José de Marabitanas
O Forte de São José de Marabitanas, ou simplesmente Forte de Marabitanas, localizava-se à margem direita do alto rio Negro, afluente da margem esquerda do rio Amazonas, cerca de quinze quilômetros abaixo de Cucuí, no atual estado brasileiro do Amazonas.
| Forte de São José de Marabitanas | |
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![]() Forte de São José de Marabitanas | |
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| Construção | José I de Portugal (1763) |
| Conservação | Desaparecido |
| Aberto ao público | |
Na região da tríplice fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela, existe um fenômeno natural peculiar: a bacia do rio Orinoco se une à bacia do rio Negro, através do Canal do Cassiquiare, possibilitando a ligação daquela localidade, nos confins da Amazônia, ao Oceano Atlântico. Esse fato, causador de vulnerabilidade na fronteira colonial, por permitir o acesso por aquele divisor de águas à bacia amazônica, foi razão para se construir, nas proximidades de Cucuí, o Forte de Marabitanas (hoje em ruínas). Pela mesma razão, existe hoje um pelotão de fronteiras do Exército Brasileiro naquela localidade.
História
A sua construção ocorreu por determinação do governador e capitão-general do Estado do Grão-Pará e Maranhão, Manuel Bernardo de Melo e Castro, no contexto da do Forte de São Gabriel da Cachoeira. Após terem sido iniciadas, em Janeiro de 1763, o seu responsável, capitão Phillip Sturm, engenheiro militar alemão a serviço de Portugal, subiu o rio com o objetivo de escolher o local para a construção de um outro forte. Este teria como funções confrontar o Fortín de San Carlos e o Fortín de San Hernando, erguidos por forças espanholas nas margens do mesmo rio, acima de Cucuí (SOUSA, 1885:59), em território da atual Colômbia, bem como proteger a navegação naquele trecho fluvial, além de reprimir os ataques indígenas (GARRIDO, 1940:15).
O local que escolheu foi uma pequena ponta de terra que avançava ligeiramente rio adentro e oferecia boa visão, tanto a montante quanto a jusante, em um estirão do rio (trecho em linha reta). No local existia um aldeamento dos Marabitanas, e as obras foram iniciadas nesse mesmo ano (1763).
Dele existe planta colorida, assinada pelo próprio capitão Sturm ("Planta da nova fortaleza dos Marabitenas", c. 1767. Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa) (IRIA, 1966:39).
Marco do extremo Norte dos domínios portugueses, foi visitada pela expedição de Alexandre Rodrigues Ferreira à Amazônia (1783-1792), que dela deixou iconografia[1] A seu respeito o naturalista referiu que se encontrava como inacabado, com apenas dois baluartes e seis peças de artilharia dos calibres 6, 4, 3 e 2, e guarnecido por dois oficiais (sendo um superior), um anspeçada, e 27 soldados, mas destes apenas seis eram permanentes. (OLIVEIRA, 1968:755)
O governador da Capitania do Rio Negro, Manuel da Gama Lobo D'Almada, criticou a guarnição dos dois fortes do rio Negro:
- "As suas guarnições [são] fracas em dois sentidos, porque são diminutas e compostas pela maior parte de muito maus soldados do país, uns que são puramente índios, outros extração ou mistura deles, gente naturalmente fugitiva e indolente, [com] falta de honra, de experiência, de capacidade necessária para uma defesa gloriosa." (D’ALMADA, 1785)
Entretanto, reconhecia a importância estratégica de Marabitanas, ao referir que "a parte desta fronteira primeiro atacada deve crer-se seja Marabitanas." (op. cit.)
No contexto da Cabanagem (1831) serviu como prisão de revoltosos. (OLIVEIRA, 1968:755)
A informação mais completa sobre a estrutura, no período, é a de BAENA (1839):
- "Este forte, de madeira replenado de terra, tem por figura um quadrado, do qual o lado sobre o rio tem dois baluartes com seu terrapleno e 12 canhoneiras; o resto do perímetro é um muro dividido em seteiras para a espingardaria, e o lado oposto ao dos baluartes faz no centro um redente. Externamente tem quatro baterias: de São Pedro, São Luís, São Simão e São Miguel; destas, a 2ª e a 3ª não podem falar no tempo da enchente do rio, porque ficam imersas.
- Esta fortificação foi mal concebida e está pior conservada, exceto o quartel e a casa da pólvora, o seu mesmo armamento, que consta de 19 peças de ferro dos calibres de 4 a 1/2, só apresenta 4 capazes de laborar." (BAENA, Antônio Ladislau Monteiro. Ensaio Chorographico do Pará. 1839. apud SOUZA, 1885:59)
Apesar de ter sofrido reparos em 1843, encontrava-se arruinado já em 1857 (SOUSA, F. Bernardino (Pe.). Comissão do Madeira, 1857. apud SOUSA, 1885:59; GARRIDO, 1940:16).
Foi visitada pelo naturalista Alfred Russel Wallace, líder da expedição amazônica inglesa de Maio de 1848 a Julho de 1852, que, ao visitá-lo em 1850, registrou que o seu comandante, o tenente Antônio Felisberto Correa de Araújo, era "solteiro convicto, mas chefe de numerosa família" (WALLACE, 1939).
À época da República Velha, no contexto da Revolução Federalista (1892), voltou a servir como prisão política. (OLIVEIRA, 1968:755) GARRIDO (1940) esclarece que o Presidente Marechal Floriano Peixoto (1891-1894) para ali desterrou o Conde de Leopoldina, o Marechal José de Almeida Barreto, o Dr. José Joaquim Seabra, e José do Patrocínio. Complementa que ainda abrigava um pequeno destacamento militar em 1915, comentando que à época (1940) devia se encontrar em ruínas (op. cit., p. 16).
BARRETTO (1958) denomina este como Forte de Cucuí, e informa que, à sua época (1958), Cucuí estava guarnecida pelo 4º Pelotão de Fronteiras da 8ª Região Militar, conservando alguns dos canhões coloniais como ornamento do pátio do Quartel (op. cit., p. 51-53).
Actualmente o forte encontra-se desaparecido e, em seu local, foi erguida uma capela de alvenaria, uma escola rural administrada pelo 4° Pelotão Especial de Fronteira (através do convênio Comando Militar da Amazônia (CMA)/SEDUC), algumas casas que abrigam os cerca de 80 habitantes do local, e um mastro onde é hasteada a bandeira do Brasil, pelo morador mais antigo, líder da comunidade.
Notas
- Prancha 97 - Prospecto da Fortaleza e Povoação de S. José de Marabitanas, 1785. (ass.: Ferreira). Ver ainda: A viagem filosófica de Alexandre Rodrigues. Revista Correio Filatélico. Ano 16, Maio/Junho 1992, nr. 136. p. 31-32.
Bibliografia
- BARRETO, Aníbal (Cel.). Fortificações no Brasil (Resumo Histórico). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1958. 368p.
- FERREIRA, Alexandre Rodrigues. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá: 1783-1792 (2 vols.). Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1971. il.
- GARRIDO, Carlos Miguez. Fortificações do Brasil. Separata do Vol. III dos Subsídios para a História Marítima do Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1940.
- IRIA, Alberto. IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros - Inventário geral da Cartografia Brasileira existente no Arquivo Histórico Ultramarino (Elementos para a publicação da Brasilae Monumenta Cartographica). Separata da Studia. Lisboa: nº 17, abr/1966. 116 p.
- MENDONÇA, Marcos Carneiro de. A Amazônia na era Pombalina (3 v.). São Paulo: Carioca, 1963. Tomo I.
- MOURÃO, Luiz Rogério Castelo Branco. A Engenharia luso-brasileira na construção das fortalezas e sua contribuição na defesa e desenvolvimento da região norte do Brasil. Fortaleza: s.e., 1995.
- OLIVEIRA, José Lopes de (Cel.). "Fortificações da Amazônia". in: ROCQUE, Carlos (org.). Grande Enciclopédia da Amazônia (6 v.). Belém do Pará, Amazônia Editora Ltda, 1968.
- SOUSA, Augusto Fausto de. Fortificações no Brazil. RIHGB. Rio de Janeiro: Tomo XLVIII, Parte II, 1885. p. 5-140.
- WALLACE, Alfred Russel. Viagens pelo Amazonas e rio Negro. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1939.
Ligações externas
- «Forte de São José de Marabitanas». in Fortalezas.org

