Maria Eugénia Varela Gomes

Maria Eugénia de Bilnstein Sequeira Varela Gomes (Évora, 1925 - 22 de Novembro de 2016), foi uma activista política e assistente social, que se destacou pelos seus esforços contra o regime ditatorial português, sendo considerada uma importante figura pela defesa dos direitos dos presos políticos durante aquele período.[1] Esteve casada com o capitão João Varela Gomes, que participou na tentativa de revolução falhada em 31 de Dezembro de 1961.[1]

Maria Eugénia Varela Gomes
Nascimento 1925
Évora
Morte 22 de Novembro de 2016
Nacionalidade português
Ocupação Activista política e assistente social

Biografia

Nascimento e educação

Nasceu na cidade de Évora, em 1925, numa família de tendências conservadoras, estando o seu pai integrado nas forças armadas.[1] Foi educada num ambiente católico, tendo frequentado o Colégio do Sagrado Coração de Jesus.[1]

Carreira profissional e activismo político

Integrou-se no Instituto de Serviço Social, tendo sido como assistente social que se envolveu no meio operário, na Década de 1950.[2] Trabalhou junto da fábrica de cortiça da Mundet, no Seixal e posteriormente no Bairro da Boavista, em Lisboa, onde testemunhou os graves problemas sociais e económicos entre os habitantes dos bairros da lata.[2]

Iniciou as suas actividades políticas como apoiante do padre Abel Varzim, que estava a ser alvo de perseguições devido aos seus esforços contra a pobreza.[3] Maria Varela Gomes liderou uma representação ao Cardeal Cerejeira, de forma a pedir a sua intervenção a favor do padre Abel Varzim.[3] Porém, apesar do Cardeal ter recebido a delegação, acabou por não apoiar o padre.[3] Em 1951, casou com o capitão João Varela Gomes,[2] tendo o casal tido dois filhos e duas filhas.[1] Em 1956, começou a trabalhar no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde ficou à frente do Serviço Social, mas foi forçada a abandonar o seu emprego apenas dois anos depois, devido aos seus ideais políticos.[2]

Em 1958 colaborou na campanha eleitoral de Humberto Delgado, e esteve envolvida na revolta falhada da Sé, em 11 de Março de 1959,[2] motivo pelo qual foi alvo de uma investigação, mas não chegou a ser presa.[1] Em 1961 colaborou na campanha eleitoral para a Assembleia Nacional, durante a qual Varela Gomes foi o único militar no activo que se assumiu como candidato pela oposição, tendo também considerado a principal figura da resistência ao regime.[1]

Na noite de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962, João Gomes comandou as forças revoltosas durante uma tentativa falhada de golpe em Beja.[1] Ao saber que o seu marido tinha ficado gravemente ferido durante a intentona, Maria Eugénia partiu para Beja, mas regressou a Lisboa quando foi informada pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado.[1] Porém, quando chegou à capital, Maria Eugénia descobriu que tinha sido enganada e foi novamente para Beja, onde foi detida e transportada para Lisboa,[1] em 6 de Janeiro, acusada de estar envolvida no golpe falhado.[2] Entretanto, João Varela Gomes já tinha sido submetido a uma operação e estava a recuperar, tendo sido autorizado pela polícia política a manter correspondência com a sua esposa, embora fortemente censurada.[1]

Maria Eugénia foi então interrogada e torturada, incluindo um longo período de tortura do sono, tendo conseguido resistir com sucesso aos agentes da polícia política.[1] Depois de cerca de dois anos e meio de prisão[1] no Forte de Caxias, foi libertada em 27 de Junho de 1963, devido à falta de provas e por não ter confessado,[2] antes do seu julgamento, que só realizou em 1964.[1] Por seu turno, João Varela Gomes foi condenado a seis anos de cadeia, só tendo sido solto em 1968.[1]

Nos quatro anos após a sua libertação, Maria Eugénia integrou-se na Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, à qual deu um grande impulso, começando igualmente a colaborar com a Amnistia Internacional.[3] Também fez parte da Frente Patriótica de Libertação Nacional, como parte de uma célula que também incluía Jorge Sampaio e Etelvina Lopes de Almeida.[2] Também travou conhecimento com outros importantes personalidades do movimento revolucionário, como Virgínia Moura, Manuel Sertório, Álvaro Cunhal, Ramos de Almeida e Sérgio Vilarigues.[2] Assumiu uma posição de destaque dentro do sindicalismo, e em 1973 fez parte da campanha eleitoral, tendo sido espancada pela polícia de choque após o final de um comício.[2]

Após a Revolução de 25 de Abril de 1974, Maria Eugénia começou a colaborar com vários advogados e membros da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, no sentido de impulsionar a libertação dos presos políticos, e o apoio aos refugiados por motivos políticos, tendo estado envolvida na libertação dos presos de Caxias.[2] Recusou as compensações financeiras às quais tinha direito, devido à perseguição a que tinha sujeita pelo regime ditatorial, e devido ao seu despedimento compulsivo da BP e do Hospital de Santa Maria.[3]

João Varela Gomes participou na golpe falhado de 25 de Novembro de 1975, na sequência do qual foi alvo de um mandato de captura.[1] Assim, refugiou-se em Angola, para onde Maria Varela Gomes partiu nos princípios de 1976.[1] O casal permaneceu em Luanda até 1977, tendo fugido daquele país devido à repressão política instituída pelo presidente Agostinho Neto, na sequência de um golpe militar falhado de 27 de Maio.[1] Estiveram em Moçambique até a Lei da Amnistia ter sido aprovada pela Assembleia da República Portuguesa, tendo nessa altura regressado a Lisboa.[1]

Família e falecimento

Em 1998 o casal perdeu um dos filhos, João António, e em Abril de 2016 faleceu o outro filho, o escritor Paulo Varela Gomes.[1]

Maria Eugénia Varela Gomes faleceu em 22 de Novembro de 2016, aos 90 anos de idade.[1] O velório foi organizado na Basílica da Estrela, em Lisboa, tendo o corpo sido depois cremado no Cemitério do Alto de São João.[1]

Referências

  1. «Lisboa: Morreu Maria Eugénia Varela Gomes. Esposa do Capitão Varela Gomes.». Lidador Notícias. 22 de Novembro de 2016. Consultado em 26 de Junho de 2020
  2. CARRAPATOSO, Miguel Santos (21 de Novembro de 2016). «Morreu Maria Eugénia Varela Gomes, a "mãe coragem" do antifascismo». Observador. Consultado em 26 de Junho de 2020
  3. «Morreu Maria Eugénia Varela Gomes». Rádio Televisão Portuguesa. 22 de Novembro de 2016. Consultado em 26 de Junho de 2020

Ligações Externas

This article is issued from Wikipedia. The text is licensed under Creative Commons - Attribution - Sharealike. Additional terms may apply for the media files.